Review – Cidade de Deus e o terror da guerra pelo tráfico

Longa-metragem diz muito mais do que uma olhada superficial possa mostrar.

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Ficha Técnica: Cidade de Deus

Direção: Fernando Meirelles

Produção: Andrea Barata Ribeiro, Maurício Andrade Ramos

Roteiro: Bráulio Mantovani

Gênero: Ação, Drama

Distribuição: Globo Filmes, Lumière Brasil e Miramax

Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge e Alice Braga

Lançamento: 2002

Lançado em 2002, Cidade de Deus foi um verdadeiro fenômeno do cinema nacional. Até hoje o filme é aclamado como uma das maiores obras que a sétima arte tupiniquim já produziu. O longa, baseado no livro homônimo de Paulo Lins, conta a história de vários personagens da favela Cidade de Deus, em especial de Buscapé (Alexandre Rodrigues), que também é o narrador do filme. Dessa premissa, somos apresentados às diversas histórias cujas intersecções culminam na obra de Fernando Meirelles.

Em termos técnicos, Cidade de Deus é um filme que faz bonito. O primeiro ponto a se destacar é como a fotografia trabalha de maneira precisa para ambientar os vários cenários com seus respectivos momentos históricos. Prova disso é o tom mais amarelado da película quando é narrada a infância de Buscapé e Dadinho (Douglas Silva) e a alteração para um tom de cores mais contrastadas quando os mesmos atingem a vida adulta. O retrato da favela quando o cenário muda é bem realizado, cumprindo um papel de imersão no espectador. A trilha sonora, a variação de ângulos, os cortes rápidos em determinadas cenas e os figurinos contribuem de maneira positiva para representar a turbulência que é a vida na favela.

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O destaque maior de Cidade de Deus é, sem dúvida, seus personagens. A maioria deles apresenta um carisma próprio, são interessantes, tem um background relevante, desempenham papel importante no enredo e ainda são sustentados por boas atuações. Buscapé é o ponto de serenidade no filme, utilizado sempre para retirar o espectador dos momentos tensos, ele é o narrador do filme e aquele que, mesmo criado naquele caótico ambiente, manteve-se firme na busca por uma vida direita. Apesar de maleável, é construído como um personagem coerente, tem um passado que se liga bem aos momentos presentes, se desenvolve de maneira harmoniosa com a história e demonstra grande personalidade.

Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora), ou Dadinho na infância, é o traficante que domina a maior parte da Cidade de Deus. Cruel, frio e sedento por poder, é o personagem de maior impacto durante todo o longa. A interpretação de Leandro Firmino se destaca, criando um Zé Pequeno ameaçador e ao mesmo tempo carismático. Seu desenvolvimento é o mais interessante da obra, visto que, podemos notar toda sua rebeldia desde a infância. É crível sua ascensão meteórica à chefe da favela, ainda mais depois de revelada sua participação sanguinária no assalto ao motel, que demonstrou toda sua inclinação ao mundo do crime desde cedo. Todos os outros personagens também são bem construídos e suas ações, motivações e resoluções são plenamente justificáveis ao longo da obra. Destaque maior para Mané Galinha (Seu Jorge), que enfrenta dilemas e decisões difíceis e cresce como personagem no enredo.

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O roteiro do filme também é, de forma geral, bem construído. A escolha no desenvolvimento da história, começando com a cena que seria derradeira e depois voltando para concluir a mesma é diferente, embora longe de original, e bem executada. O longa é eficaz em entreter durante a maior parte de sua projeção, demonstra ter um bom planejamento e mantém um adequado clima de tensão durante praticamente toda a obra. Os diálogos do filme demonstram também a selvageria do ambiente ali retratado e o roteiro é eficaz na ambientação e no impacto que ele visa apresentar. O propósito do filme parece ser o de mostrar a crueldade da vida na favela e, nesse ponto o roteiro cumpre muito bem, contudo há também uma visível tentativa de ataque à instituição Polícia Militar, visto que essa é retratada em todos os momentos como corrupta e/ou ineficiente, ainda que o dinheiro usado para a corrupção dos policiais venha dos próprios traficantes. Não estou dizendo que não há corrupção na PM, sabemos que isso acontece sim e, como mostrado no filme, muitas vezes por causa do dinheiro advindo do próprio crime organizado; mas o filme tenta subverter a ordem das coisas fazendo da exceção a regra. O mais correto seria mostrar os dois lados. O filme peca nesse ponto. No mais, há pequenas incoerências em pontos casuais, mas nada que chegue a ser digno de nota maior. Seu final é surpreendente e mostra bem a corrupção presente na polícia e na mídia.

Cidade de Deus não é o suprassumo da inteligência e da produção cinematográfica, mas aborda a crueldade da vida na favela de maneira sangrenta e insana, o que já vale um destaque a mais. Traz conceitos interessantes, principalmente ao mostrar personagens que, mesmo criados nesse ambiente, conseguiram, por mérito próprio, construir uma vida diferente e honrada. Também mostra que, para a criminalidade, infelizmente, não há idade nem tamanho e o combate a ela deve ser feito de maneira séria, com punições severas aos indivíduos e com mudanças em toda estrutura social, urbana e, principalmente, cultural. Erra ao generalizar um pouco o retrato da polícia, como já comentado, mas acerta em outros pontos de maneira interessante, como ao mostrar que a crueldade e capacidade de escolha está muito mais condicionada a uma característica do indivíduo do que a fatores externos.

Por mostrar a natureza humana e retratá-la de maneira tão cruel e exagerada, o que é sempre válido quando se tem a intensão de reforçar uma mensagem, sem, contudo, esquecer o lado bom que a mesma pode apresentar, independente de fatores externos a que ela está inserida, Cidade de Deus merece ser visto e compreendido pelo que ele realmente mostra de relevante. Porque é o que precisamos para entender o complexo problema que ele se propõe a mostrar.

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