Filme tem erros pontuais, mas traz questões muito interessantes.

Ficha Técnica:
Bohemian Rhapsody
Direção: Bryan Singer, Dexter Fletcher
Produção: Graham King, Jim Beach, Robert De Niro, Peter Oberth, Brian May, Roger Taylor
Roteiro: Anthony McCarten
Gênero: Biografia, Drama
Distribuição: 20th Century Fox
Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Tom Hollander, Allen Leech, Mike Myers
Lançamento: 2018
Bohemian Rhapsody tinha tudo para sofrer com os problemas que teve em sua direção, após a saída de Bryan Singer por acusação de estupro. Contudo, e felizmente, não foi o que ocorreu. Partindo da premissa base de tomar a vida do vocalista do Queen, Freddie Mercury, como fio condutor da narrativa, o filme é uma biografia da história da banda britânica, eternizada como uma das maiores de todos os tempos.
Em termos técnicos, Bohemian Rhapsody é competente. A fotografia e a iluminação empregadas nas cenas conseguem imergir bem o espectador nos 70 e depois nos 80. O figurino e a maquiagem utilizados têm os seus papéis nessa questão, embora não sejam nada muito acima da média. A edição do filme não compromete, mas há passagens que poderiam ser melhores, como nas cenas do show “Live Aid”, onde é perceptível que a plateia foi montada digitalmente. A trilha sonora, em um filme biográfico do Queen, fala por si só: é brilhante por ser o Queen.
O grande ponto em Bohemian Rhapsody são seus personagens, tendo Freddie Mercury (Rami Malek) como o ponto maior. A interpretação de Malek é competente e, principalmente no gestual, convence bem como Freddie, que era uma figura única. O desenvolvimento dado ao vocalista do Queen é o ponto central do filme e é interessante perceber como ele lida com a fama e com seus problemas mais íntimos. Suas oscilações tanto na vida pessoal como na profissional, que culminam em problemas em seus relacionamentos interpessoais, representam bem a natureza humana de Freddie e também sua personalidade implacável.

Os outros membros do Queen estão ótimos. Gwilym Lee está assustadoramente igual ao Brian May e dá personalidade e carisma ao personagem. Ben Hardy faz um Roger Taylor que também se destaca, aproximando-se bem da figura que era o verdadeiro. A participação dos próprios na produção deve ter contribuído muito nessa parte. Joseph Mazzello faz um John Deacon também eficiente, com a descrição que era marca do ex-baixista do Queen. Dentre os personagens principais, é preciso um destaque à parte para Mary Austin (Lucy Boynton), o “Love Of My Life” de Freddie Mercury, e fio condutor de boa parte de seus propósitos e motivações, e aquela que preenchia o vazio em seu espírito como o grande amor de sua vida.
O roteiro do filme é algo a ser pensado com calma. Bohemian Rhapsody começa com a origem do Queen, porém avança rapidamente para uma fase de já relativo sucesso da banda. Há uma sensação de falta de aprofundamento na relação inicial dos membros e como foi esse processo de integração. A narrativa toma o caminho de usar os dramas pessoais de Freddie enquanto mostra a origem das gravações de algumas das canções mais icônicas do grupo, o que funciona bem, porém quebra um pouco a expectativa de aprofundamento nas questões mais íntimas do espírito de Freddie e de seus medos e escapes. Ao longo do filme vemos melhor o relacionamento da banda e como a volatilidade de Freddie influencia na capacidade criativa do Queen, seja para o bem ou para o mal. Há erros biográfico grandes, como quando ele descobre sua doença antes do show do “Live Aid”, quando na verdade isso ocorreu depois. Ainda que uma cinebiografia não precise ser 100% verdadeira, esse é um ponto central que deve incomodar muitos.
Um propósito claro do longa é saudar a memória do Queen como uma das melhores bandas de todos os tempos, por isso os membros sempre se demonstram seguros de que podem alcançar o sucesso, de que são inerentemente bons e de que podem romper paradigmas na indústria musical. Isso tudo pode até ser verdade, mas não deixa de funcionar como uma autopropaganda, com certo romantismo e até soberba. As cenas de música, que são dubladas, são excelentes e o desempenho dos atores nas encenações contribui para a imersão ao que era realmente o Queen. Há bons diálogos e uma narrativa, excetuando os erros cronológicos e biográficos, coerente.

Bohemian Rhapsody é, sobretudo um filme sobre a natureza do homem e suas relações. Goethe dizia que a maior força que existe é a personalidade humana e, talvez, poucos representem tão bem isso quanto Freddie Mercury. Ele era único, sua personalidade era de uma imposição quase inigualável e seu sucesso vinha, em última análise, de sua originalidade, de seu talento e de sua vocação. Seus dramas pessoais, frutos de suas relações turbulentas e de uma vida tragada por um mundo de prazeres regado a drogas e parceiros sexuais não conseguiram destruir o seu talento nem seu amor por Mary Austin, como bem demonstra o filme. É curioso notar esse ponto: o longa é muito eficiente em mostrar como Freddie era muitas vezes solitário, e isso o levava a procurar prazeres diferentes, o que o tornou homossexual (ou talvez bissexual numa linguagem mais moderna), mas contraditoriamente o amor da sua vida sempre foi Austin. Uma pena que o longa não explore com maior profundidade essas questões existenciais na vida de Freddie. Ainda assim, vale a nota pelo que foi apresentado.
Com mais de duas horas de duração, Bohemian Rhapsody não deixa o público entediado, o que é um fator louvável num filme do gênero biografia. Sua trilha sonora tem um poder enorme e contribui muito nesse sentido. Aliado a isso temos uma obra que explora diversas facetas da história do Queen e principalmente de Freddie Mercury, entrando em questões próprias de sua natureza humana. Os dramas, paixões, alegrias, decepções e, principalmente, sua inabalável personalidade, dão o tom do filme e, mesmo que nem todos os pontos tenham a devida atenção que merecia, o resultado final é muito bom e premia o espectador com um filme biográfico próximo da grandiosidade que foi o Queen.
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