Análise – Como construir um grande protagonista: Son Goku, a pedra angular em Dragon Ball

Este é o nosso quadro “Análise”, a sessão onde fazemos uma análise mais técnica e que conclui alguma coisa relevante sobre algum ponto dentro de algum processo de produção cultural humano. Podemos analisar como um determinado fenômeno cultural se manifesta, como uma narrativa é desenvolvida, que tipo de representação tem determinado personagem dentro do contexto ao qual ele está inserido… Enfim, as possibilidades de temas relevantes para serem analisados dentro da cultura são infinitos, e alguns deles traremos aqui.

Son Goku é o grande protagonista de Dragon Ball e um dos personagens mais populares do mundo. Ícone da cultura popular no mundo inteiro, alcançou status de herói nacional no Japão, tendo dia oficial no país e até a alcunha de embaixador dos Jogos Olímpicos de 2020. Nesta análise, mostraremos alguns pontos que foram determinantes na construção do personagem como protagonista de sua história e porque essa construção é incrivelmente bela e coesa.

Son Goku, como apresentado em sua fase criança e adulta.

Dragon Ball, em sua história original, começa como uma despretensiosa história de aventura, com muita comédia e fantasia. A obra vai crescendo em construção de mundo e enredo conforme o próprio Goku cresce. A medida que seu protagonista conhece mais o mundo, mais esse se torna grandioso e místico.

Desde que encontrou Bulma e decidiu sair com a mesma na jornada em busca pelas Esferas do Dragão, Goku se torna o inexorável motor que move a história, o eixo central onde todo o enredo precisa se desenvolver, sendo suas ações importantes para praticamente todos os acontecimentos posteriores.

Comecemos pelo primeiro arco, a jornada de Goku e Bulma nos leva a conhecer os personagens vindouros e dali o Mestre Kame, com quem Goku acaba decidindo treinar. Antes mesmo de começar seu treino e decidir participar no Torneio de Artes Marciais, ele já se decidira a buscar novamente as Esferas do Dragão e encontrar a de 4 estrelas, herança do seu avô. Dessa decisão já se tem o pontapé para o arco seguinte, o da Força Red Ribbon.

Da longa jornada de Goku em busca da herança de seu avô, desenrola-se seu embate contra a Red Ribbon, que culmina com nosso herói dizimando o mais temível exército paramilitar do planeta. Tem-se, então, a semente plantada para todo o arco dos androides, haja vista que esses foram construídos para se vingar da destruição que Goku impôs ao exército vermelho. Naquele momento, depois de tantas batalhas e desafios, Goku já era o ser mais poderoso no solo do planeta e o único capaz de resolver os problemas que surgiriam. É neste arco incrível que novos cenários e personagens terciários importantes – embora pouco lembrados – são trazidos à trama, todos direta ou indiretamente por ações de Goku, podemos citar a Torre Karin, o Mestre Karin e a Vovó Uranai, por exemplo.

Son Goku na Saga Red Ribbon, arte por Akira Toriyama.

Terminado a batalha contra a Red Ribbon, Goku inicia a jornada para mais um torneio, buscando se tornar ainda mais forte. Terminado o torneio, um novo inimigo muito poderoso surge: Piccolo Daimaoh. Nesse arco temos o primeiro assassinato de um personagem importante em Dragon Ball – a morte de Kuririn – e a história ganha um novo peso dramático. Goku sai ao encalço do vilão para vingar seu amigo, quase morre e fica fora de ação por um tempo. Essa se torna uma constante no mangá. Desde a batalha contra a Red Ribbon, Goku se estabeleceu como o “homem mais forte do mundo” e aquele que poderia solucionar os problemas. A tônica do mangá passa a ser: retirar o Goku de cena para que o problema se desenvolva e ele surja no fim para resolvê-lo.

Pois bem, enquanto ele está fora de cena, ninguém consegue lidar com Piccolo, outros personagens são mortos e o vilão passa a dominar o mundo inteiro. Apenas Goku, depois de encontrar novamente o Mestre Karin, seria capaz de vencer Piccolo. Segue uma luta heroica e épica onde, pela primeira vez, ele se torna o salvador do mundo inteiro.

A derrota de Piccolo abre espaço para o arco seguinte, pois o mesmo deixa seu filho para vingá-lo. Goku é mais uma vez causa direta do perigo posto ao mundo, numa cíclica consequência para o ato de heroísmo: ao resolver um problema outro surge logo em seguida para ocupar seu lugar, necessitando de um novo ato heroico para enfrentá-lo.

Goku treina com Kami-sama – o deus da Terra – e o Sr. Popo, seu assistente, para enfrentar o herdeiro de Piccolo. Esse é um ponto chave, pois conhecemos o deus da Terra e o Templo de Kami-sama. Foi nesse treinamento que Goku foi testado na Sala do Tempo e não aguentou um mês sequer no local. Três anos depois, ele enfrenta e vence Piccolo, mas o deixa escapar. Mais uma vez, apenas ele podia lidar com o problema.

Seguem quase 5 anos de paz, nosso herói se casa e tem um filho, Gohan. Piccolo ainda pretendia vingança, mas já parecia não ter tanto ímpeto ou pressa em sua ambição. Eis que surge Raditz – um Saiyajin, raça de guerreiros extraterrestes -, irmão mais velho de nosso protagonista e quem revela à todos a verdadeira identidade extraterrestre de Goku.

O Goku extraterrestre explode de vez o mundo de Dragon Ball, pois agora a coisa se torna interplanetária. Todo o arco seguinte só existe porque Goku é um Saiyajin e Raditz veio à Terra para buscá-lo. Piccolo e Goku lutam juntos e acabam matando Raditz, mas nosso herói se sacrifica na batalha. Então, o vilão dá o recado que Vegeta e Nappa, outros dois Saiyajins, viriam a Terra para conquistá-la em um ano.

Para enfrentar os novo inimigos, Goku é levado ao outro mundo e uma nova expansão de mundo ocorre. Conhecemos o Outro Mundo e o Sr. Kaioh, dando início ao panteão de deuses de Dragon Ball. É no treinamento com o Sr. Kaioh que Goku aprende a técnica mais importante de toda a obra: a Genki Dama!!!

Embora o Kamehameha seja o golpe mais famoso de Goku, principalmente pela repetição, é a Genki Dama o golpe capaz de resolver o problema quando não parece mais haver soluções. Falaremos mais adiante. É notável que o Sr. Kaioh tenha escolhido ensinar a Genki Dama – e até mesmo o Kaioh Ken – apenas para Goku. Talvez, lá no fundo, apenas ele poderia dominá-los por ser um verdadeiro gênio e ter o coração puro.

Os Saiyajins chegam à Terra antes de Goku e, com nosso protagonista fora de cena (lembram da tônica do mangá?), promovem uma chacina. Ninguém pode vencê-los e todas as esperanças se depositam em Goku. Nosso herói chega no momento aterrador e, mesmo com muitos percalços, é mais uma vez a chave para a resolução do problema.

O arco seguinte, o de Freeza, é consequência direta da decisão de Goku em deixar Vegeta vivo. E consequência indireta da vinda de Vegeta e Nappa à Terra, que só aconteceu por causa de… Goku! Muito mais é revelado nesse arco, como Freeza ser um grande imperador intergalático e ter sido o responsável pelo extermínio dos Saiyajins e o assassino dos pais de Goku e Vegeta.

A Saga de Freeza também repete a tônica do mangá, afinal Goku fica para trás para se recuperar da batalha contra Vegeta e apenas Gohan, Kuririn e Bulma vão para Namekusei. Num momento de dificuldade extrema, nosso herói chega para salvar o dia contra as Forças Ginyu. É citado a lenda do Super Saiyajin pela primeira vez.

Após muitos contratempos e antes da batalha final contra Freeza, Goku novamente é retirado de cena. A batalha contra Freeza se desenrola até chegar ao clímax de tensão, para mais uma vez Goku chegar para salvar o dia. Desta vez nem ele – e nem a Genki Dama – parecia capaz de resolver o problema, Vegeta e Kuririn são assassinados pelo vilão, até que surge o Super Saiyajin Goku. Ao derrotar Freeza, Goku atinge pela primeira vez o nível de mais forte do universo.

Reprodução das páginas onde Goku aparece transformado em Super Saiyajin pela primeira vez. Arte por Akira Toriyama.

Goku não volta à Terra e Freeza consegue reviver sobre uma forma cyborg. Ele vai à Terra, porém é morto por Trunks, o filho de Vegeta e Bulma que veio do futuro numa máquina do tempo. Trunks revela que seu futuro é distópico, nele Goku morreu de doença do coração e todos os guerreiros foram mortos pelos androides da Força Red Ribbon, criados para vingança contra Son Goku.

Nesse momento, podemos perceber porque o futuro de Trunks é distópico e como Goku é de fato a pedra angular em Dragon Ball e o único capaz de resolver os problemas. Como as Esferas do Dragão não ressuscitam mortos por doença, nosso herói não pôde lutar no futuro. Sem ele, os outros guerreiros nunca pensaram em treinar da Sala do Tempo e sucumbiram perante os androides.

No tempo presente, com Goku vivo (Trunks trouxe um remédio do futuro para ele), a história foi totalmente diferente. Goku era o único que conhecera a Sala do Tempo, e pensou rapidamente nela como uma solução. Detalhe é que, mais uma vez ele é tirado de cena para que os problemas se desenvolvam: primeiro pela própria doença, segundo para ficar treinando na Sala do Tempo. Enquanto isso, tudo deu errado na Terra. Cell aperfeiçoou seu corpo e o problema se tornou gigantesco.

Ainda no meio do arco de Cell, é Goku quem tem a ideia de buscar um novo Kami-sama para Terra, já que Piccolo se fundira com o antigo e por isso as Esferas do Dragão deseparaceram. Goku pensa em um novo Kami-sama que também seja um Namekusejin, para que assim esse possa restaurar as Esferas do Dragão da Terra. Ele vai até o Senhor Kaioh e, de lá, busca Dendê no Novo Namekusei. Tudo isso é rapidamente resolvido pois só o pai de Gohan sabia usar o Teletransporte. Sem Goku, não seria possível a restauração das Esferas do Dragão.

Goku no Planeta do Senhor Kaioh, à procura de um novo Kami-sama. Créditos: Toei Animation.

No único arco que não é resolvido por Goku, ele ainda tem destaque ímpar. Treinando Gohan, ele percebe o potencial do filho e deposita nele suas esperanças. Quando Cell ia explodir, o mesmo se sacrifica para salvar a todos. No além, manda um recado relembrando de uma fala de Bulma para si mesmo “os problemas parecem segui-lo Goku, enquanto estiver aqui sempre acontecerão coisas desastrosas.”, confirmando a própria essência de nosso herói como legítimo protagonista e motor de toda história de Dragon Ball.

Goku opta por permanecer morto, ou seja, no outro mundo. O resultado é imediato: 7 anos de paz ininterruptas na Terra. O último arco de Dragon Ball é o único não causado diretamente por Goku. Seu papel continua fixo apenas como salvador. A tônica de retirá-lo de cena se repete, pois ele passa a maior parte do arco “morto”, e uma parte pontual desacordado (será que se Goku e “Majin Vegeta” tivessem enfrentados juntos o Majin Boo gordo teriam encerrado a Saga Boo logo ali?), com todos os problemas se desenvolvendo a níveis inimagináveis porque Goku não interferiu diretamente.

No fim, Son Goku, com a Genki Dama planetária, vence Kid Boo, num final épico memorável, eternizado na mente de muitos fãs, e encerra Dragon Ball como o maior herói do universo. Um herói que exemplifica o caminho de batalhas sem fim, da bondade, da pureza e do auto sacrifício.

Goku no último episódio de Dragon Ball Z, na conclusão da Saga. Créditos a Toei Animation.

Este breve resumo da história, passando por alguns pontos chaves que evidenciam como Goku é o motor essencial de Dragon Ball e a pedra angular sob a qual toda a história está estruturada, exemplifica como deve ser construído um grande protagonista. Comparado a protagonistas de outras histórias, é raro vermos algum que tenha essa capacidade de abraçar toda a narrativa construída em torno de suas próprias ações e biografia. Essa construção é, sem sombra de dúvida, um dos pilares que construíram o personagem e o transformou em um ícone cultural. É vital que um grande protagonista seja o eixo de sua história, aquele que age e faz acontecer na mesma, não somente alguém que reaja aos problemas postos em cena.

É curioso que Goku se tornou grande e importante demais dentro da obra de Dragon Ball, e isso muito cedo também. Desde o arco da Red Ribbon ele já era forte o suficiente para resolver os problemas que apareciam. O grande protagonista criado por Akira Toriyama se tornou um problema para o mesmo. Afinal, como desenvolver conflitos para que se tenha uma história minimamente emocionante se a chave para a resolução do conflito já está posta? A resposta é simples: limitar a chave. Foi isso que precisou ser feito ao Goku, e foi bem executado durante toda a obra, ajudando a criar a mística de herói e ícone para o personagem.

Existem outros fatores importantes que também contribuem para Goku ser o que é hoje. Podemos citar: seu carisma, sua evolução como personagem, sua jornada, a própria história e obra em si de Dragon Ball, entre outros. Contudo, deixarei esses pontos para uma abordagem futura. No momento, apenas gostaria de convidá-los a refletir sobre tudo o que foi exposto aqui e deixar a pergunta: vocês conhecem algum outro protagonista com tamanha influência na história sob a qual ele está inserido? Algum protagonista que, mesmo num mundo novo, fantástico, diverso e vasto, seja causa e motor de quase tudo de relevante na história? Aguardo pelas respostas.

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