Este é o nosso quadro “Análise”, a sessão onde fazemos uma análise mais técnica e que conclui alguma coisa relevante sobre algum ponto dentro de algum processo de produção cultural humano. Podemos analisar como um determinado fenômeno cultural se manifesta, como uma narrativa é desenvolvida, que tipo de representação tem determinado personagem dentro do contexto ao qual ele está inserido… Enfim, as possibilidades de temas relevantes para serem analisados dentro da cultura são infinitos, e alguns deles traremos aqui.
Son Goku se tornou um exemplo de construção para um protagonista exemplar e por isso se firmou como um ícone dentro da cultural popular. Ao se criar um personagem tão grandioso, é necessário dar suporte com outros personagens que também consigam elevá-lo e manter a história interessante. Conseguir construir um antagonista interessante ao protagonista, principalmente quando esse é tão bom, torna-se um desafio particular para o autor. Em Dragon Ball, Toriyama teve dificuldades e conseguiu acertar com Vegeta, após as tentativas falhas com Tenshin Han e Piccolo.
Lembrando que um antagonista não precisa ser necessariamente um vilão, e quando ele não o é, desenvolvê-lo sem colocá-lo diretamente em embate com o protagonista pode ser ainda mais difícil em termos de desenvolvimento e de roteiro. Um antagonista pode ser o vilão sim, mas também pode ser um anti-heroi, uma figura dúbia ou ainda um personagem de inteiro suporte ao protagonista, mantendo a rivalidade e o antagonismo com esse em alguns aspectos.
Em Dragon Ball, Piccolo ainda se mostrou promisso em algum nível, mas faltava algo para que estivesse em pé de igualdade com Goku. Vegeta, por outro lado, não. Goku e Vegeta são ambos guerreiros Saiyajins, logo, possuem potencial ilimitado para se desenvolverem. Vegeta, não somente é um Saiyajin como também é o orgulhoso príncipe da raça. Soma-se a isso o fato de que ele foi apresentado como o maior guerreiro que a propria espécie tinha produzido até então: ou seja, um guerreiro incrível e um desafio quase insuperável.
Toda a apresentação de Vegeta e sua construção justificam plenamente sua personalidade e a marca registrada da mesma: seu imenso orgulho. Ao ser derrotado na Terra, mas principalmente ter sido superado por Goku em alguns momentos da grande batalha que travaram, o orgulho de Vegeta foi abalado como nunca antes. Não era simplesmente ter sido superado por outro Saiyajin, o pior é ter sido superado por um considerado de classe baixa. O Príncipe dos Saiyajins não podia deixar isso assim. E ele não aceita isso até o fim da obra, como veremos a diante.
A jornda de Vegeta segue por caminhos variados ao longo da obra. Ele não se converte rapidamente para o lado “do bem”. De vilão principal, vai para anti-heroi e antagonista com peso suficiente para sustentar a narrativa em vários momentos. Em Namekusei, luta exclusivamente por interesses próprios com a finalidade de derrotar Freeza, destituir seu império e se tornar o soberano do universo. Todas as suas alianças e trabalhos são com esse objetivo final, seu foco e ações são minimamente calculados para isso.

Vegeta em Namekusei. Arte original de Akira Toriyama: versão colorida do mangá. Créditos: Shonen Jump.
O mais interessante em Vegeta é como ele é muito bem usado dentro do roteiro para mover a história enquanto Goku não está em foco. Em Namekusei, com Goku fora de ação, é o Príncipe dos Saiyajins quem sustenta a história e faz os principais movimentos dentro da mesma. Entre idas e vindas, voltas e reviravoltas, foi Vegeta quem, no fim das contas, exterminou cada um dos homens do exército de Freeza. Já pararam para pensar?
Quando Goku chega a Namekusei e demonstra grande poder, Vegeta – no fundo – não aparenta tanta inveja ou arrogância, naquele momento ele vê um aliado importante para derrotar Freeza. No fim da Saga, ao lutar contra o vilão, perde a luta após ser brutalmente humilhado e massacrado. Antes de morrer, vê a chegada de Goku e chora diante dele, implorando que Freeza seja morto pelas mãos de Saiyajin do pai de Gohan.
Depois, Vegeta é ressuscitado pelas Esferas do Dragão, afinal Toriyama não poderia se dar ao luxo de perder o grande antagonista de Goku tão cedo na obra. Ao introduzir Trunks na história, ele já mostra sua intenção de fazer Vegeta dar um passo além na sua conversão, ao casar o Príncipe com Bulma. Aliás, belo casal: um príncipe com a mulher mais inteligente do mundo! Vegeta treina rigorosamente com o objetivo de superar e derrotar Kakarotto. Os androides são apenas pequenos impecilhos em seu grande objetivo final.

Vegeta após se transformar em Super Saiyajin pela primeira vez. Créditos: Toei Animation.
Durante a Saga de Cell, Vegeta segue com papel muito importante dentro da obra e é ponto chave para algumas das viradas mais importantes na obra. É Vegeta quem salva Goku contra o Androide #19, ainda que Piccolo pudesse fazê-lo naquela altura. Sua participação mais decisiva é a favor do mal, mais uma vez. É ele quem permite Cell se desenvolver por completo e ajuda a impedir Trunks de intervir no processo. Se Vegeta não entrasse na Sala do Tempo antes de Goku, Cell não teria se aperfeiçoado e a Saga terminaria muito antes. Vegeta, apesar se estar do lado “do bem” tem participação decisiva e totalmente consciente para o lado do mal, mostrando que sua conversão estava longe de estar completa e que seu orgulho gigantesco ainda era fonte de problemas para os Guerreiros Z.
No fim da Saga Cell, existem dois pontos de virada muito interessantes no caminho de Vegeta. Ao ver Cell matar Trunks diante dos seus olhos, Vegeta sente – pela primeira vez – a dor de perder alguém querido para si, de forma que talvez nem ele soubesse que poderia sentir. Ele parte para cima do inimigo com um massivo ataque mirabolante e é derrotado facilmente. Ao ser encurralado é salvo por Gohan, mas nesse processo vê o filho de Kakarotto ser gravemente ferido por sua causa. Vegeta então pede desculpas pela primeira vez, mostrando um primeiro grau significativo de quebrantamento. Ao fim do arco, ele decide nunca mais lutar, vendo o que tinha se tornado e principalmente a ausência de seu grande rival.
Após a Saga de Cell, temos sete anos de paz e um calmo Príncipe dos Saiyains, humilhado após o Cell Game por ter sido superado por pai e filho, que resolvera evitar conflitos por um tempo e viver, aparentemente, tranquilo. Soma-se a isso o fato de Goku estar morto e seu maior objetivo de vida – vencer Goku – não ser mais possível de ser realizado. Eis que Goku resolve voltar a Terra por um dia, para participar do Torneiro de Artes Marciais, motivo suficiente para reacender a chama dentro do coração de Vegeta, que também entra no Torneio para enfrentar seu grande rival.
A grande questão é o que se segue ao torneio. Aparece o Supremo Senhor Kaioh e conta sobre Majin Boo. Eles o acompanham e, após uma série de eventos, Vegeta – com objetivo de finalmente lutar com Goku – vende sua alma a Babidi e é o personagem central para a ressurreição de Majin Boo. Sem Vegeta ali, Majin Boo possivelmente nunca tivesse despertado e toda a Saga Boo não existiria. O Príncipe dos Saiyajins ainda tem uma bonita cena de rendenção ao assumir toda a responsabilidade pelo despertar do demônio rosa e enfrentá-lo sozinho. Por fim, se sacrifica na batalha mas não consegue vencer o grande mal que tanto ajudou a despertar.
A Saga Boo continua, com muitas reviravoltas, até que Boo coloca todo o universo em perigo. Na batalha final, Vegeta reconhece a superioridade de Goku, traça o plano para destruir definitivamente o inimigo e ajudar Goku a salvar o universo. Ao reconhecer a superioridade de Goku, Vegeta finalmente fecha seu arco em Dragon Ball e põe fim a disputa que se estendeu desde sua aparição até a derradeira batalha. Seu orgulho e obstinação em ser o número um só termina no momento derradeiro da obra e, por isso, seu arco é completado.

Sacrifício de Vegeta para derrotar Majin Boo foi a primeira vez que ele lutou por outras pessoas.
Em linhas gerais, Vegeta sustenta muito bem seu papel como antagonista. Sua rivalidade com Goku é muito bem construída na obra e o motivo de muitos ainda acompanharem as continuações de Dragon Ball Super – que não fazem sentido visto o fechamento do arco de Vegeta na derradeira batalha contra Kid Boo – mas por ter sido tão bem construída, ainda consegue render histórias com bom nível de entretenimento entre os fãs.
Outro ponto notável em todo seu desenvolvimento é como ele, inicialmente um vilão impiedoso, passa por uma conversão lenta, gradual e com muitas nuances pelo caminho. Se fizermos um placar sobre quantas contruibuições decisivas Vegeta teve para o bem e para o mal na franquia toda, talvez o resultado final seja surpreendente e até pese para o lado maligno, o que mostra que ele nunca foi de fato um herói, mas uma figura tridimensional que precisa ser reconhecida como um personagem extremamente importante para o roteiro desde sua aparição.
Uma nota interessante, que talvez nunca saberemos se foi intencional ou casual por parte de Akira Toriyama, é que Vegeta vai – conforme lentamente tem sua personalidade muda – perdendo partes de sua armadura e roupas Saiyajin. No fim da Saga, ele aparece vestido como um terráqueo comum. Seria essa uma forma visual de mostrar como o orgulhoso Príncipe dos Saiyajins foi aos poucos se tornando um autêntico terráqueo?

Vegeta no fim do mangá/anime aparece usando roupas comuns. Créditos: Toei Animation.
Não é incomum vermos a popularidade de Vegeta sendo próxima a de Goku dentro do fandom, o que é plenamente justificável visto a boa construção dele como um antagonista do heroi da fraquia, e todo o belo desenvolvimento que ele passa durante o decorrer da obra. Vida longa ao Príncipe dos Saiyajins e parabéns a Akira Toriyama por ter construído um exemplo de antagonista dentro de sua grandiosa história!
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