Uma epopeia sobre vingança e redenção que se tornou ícone dentro da cultura pop.

Ficha Técnica:
Berserk
Roteiro: Kentaro Miura
Arte: Kentaro Miura
Gênero: Fantasia, Horror, Aventura, Sobrenatural
Revista: Young Animal
Editora: Hakusensha
Serialização original: Agosto de 1989 e ainda em publicação .
“Berserk” é um aclamado mangá com roteiro e arte de Kentaro Miura, que iniciou sua serialização em agosto de 1989 e ainda não foi finalizado. Miura faleceu em maio de 2021, deixando sua obra inacabada e incontáveis fãs órfãos. Apesar disso, Berserk não foi dado como finalizado e a obra continua em publicação em ritmo lento. Dizem que Kouji Mori, amigo próximo do autor, foi a única pessoa para quem ele contou os pontos principais da obra, inclusive sua conclusão. A equipe por trás de Berserk continua a obra a fim de concluir o legado de Miura.
“Berserk” é uma obra de fantasia e horror, situada num mundo fictício inspirado na Europa medieval, que segue os passos de Guts, um espadachim errante em busca de fortalecimento para concluir sua vingança contra Griffith, um antigo aliado que destruiu sua vida e o amaldiçoou a conviver e ser atormentado por demônios para sempre. Mais do que a maldição lançada contra si próprio, Guts ainda busca se vingar pela morte de seus amigos e resgatar a sanidade mental – destruída por Griffith – de Caska, a pessoa com quem ele desenvolveu laços de amor e companheirismo.
Em termos técnicos, Berserk está facilmente entre os mangás com melhores artes de todos os tempos. Miura foi capaz de desenhar páginas que vão do mais profundo detalhe em cenas de grande horror a campos abertos de guerra, alternando também belas paisagens medievais, monstros e demônios com visuais extremamente variados e um nível de violência gráfica difícil de ser equiparado. Narrativamente, toda essa violência é justificada para apresentar a podridão do mundo de Berserk e seu nível de crueldade, porém o autor permanece com o estilo e por vezes abusa de cenas que já não mais contribuem narrativamente, servindo apenas para chocar ou ser enfadonho, em certas passagens. O pacing do mangá não é de nível extraordinário, mas cumpre seu papel. Movimentações de luta por vezes são confusas, mas no geral, as cenas costumam ter a fluidez necessária para não deixar a leitura caótica.
O ponto mais forte de Berserk é, provavelmente, seus personagens. Guts, o protagonista da obra, é a expressão máxima de uma vida marcada por tragédias colossais. Órfão e encontrado por um grupo de mercenários, cresceu como um e aprendeu a ser um grande guerreiro por puro extinto de sobrevivência. Os amigos que fez durante sua jornada, e que foram destruídos pelos eventos ao qual Guts teve de enfrentar, ajudaram a formar sua personalidade e dar forças para seguir em frente. Como um guerreiro de ferocidade inigualável no campo de batalha, além de determinação colossal, seria ele o ponto de ignição capaz de mudar os rumos de um mundo totalmente brutal?

Guts, protagonista de Berserk.
Griffith é o grande antagonista de Guts e o personagem que faz a obra andar de maneira significativa. Suas ações foram determinantes em todos os pontos realmente importantes da obra e é o motor principal da história de Berserk. Sedento por poder e com planos audaciosos, é o típico vilão manipulador que conquista tudo o que almeja sem necessariamente usar a força física ou meios diretos. Um personagem de complexidade ímpar e uma pedra angular dentro de Berserk e da cultura popular como um todo.
Caska, o amor de Guts, foi apresentada como uma grande heroína e guerreira. Após os eventos traumáticos desencadeados por Griffith, perdeu sua sanidade e passou grande parte da obra apenas como uma companheira irracional de Guts, vítima de um Transtorno de Estresse Pós Traumático gravíssimo. Podemos citar ainda os personagens de apoio, principalmente Farnese, Serpico e a bruxa Schierke, com seus arcos de desenvolvimento próprios e busca por redenção e aperfeiçoamento, bem como os vilões da “Mão de Deus”, os “Apóstolos” e o Cavaleiro Crânio – enigmático e crucial personagem em momentos de clímax da obra.
O roteiro de Berserk é complexo, com um mundo completamente sombrio e estranho, em que não parece haver bondade e nem mesmo uma figura sobrenatural que se contraponha a “Mão de Deus” ou a “Ideia do Mal”. Tais elementos não foram totalmente abordados e permanecem obscuros em muitos pontos na obra, sendo um incômodo considerando que a realidade tende a ser dual para haver equilíbrio, seja ela em que mundo imaginado estiver. A complexidade de tais elementos fica ainda mais obscura quando lembramos que Miura pediu para ocultar o capítulo 83 da obra na versão encadernada, pois se arrependeu de apresentar o conceito da “Ideia do Mal” tão cedo no mangá.
No plano imanente, temos uma história sobre vingança, a de Guts contra Griffith. Porém, esse alcançou status de divindade e busca glórias difíceis de serem explicadas e exploradas. Guts, por outro lado se fortalece, mas ainda parece extremamente distante de Griffith, em todos os sentidos. Neste mundo complexo, como ele poderá concluir sua vingança?
Há muitos elementos lançados na obra que se tornam cada vez mais complicados e difíceis de serem conectados lá na frente, seja a ideia dos Apóstolos, a guerra política e geográfica entre os países da obra e o papel de Griffith nisso tudo, bem como os outros incontáveis players dentro do jogo imanente e transcendente da obra. Todo o tom extremamente niilista de Berserk não recebeu, até o momento um vislumbre sequer de contraponto. E parece cada vez mais difícil de ser explorado. O Arco da Torre Celestial, por exemplo, termina de maneira estranha, com pontas soltas e elementos criados que nada concluem e, por fim, causam um sentimento no leitor de ter passado por inúmeros capítulos de uma grande barriga no enredo onde quase nada de útil para a trama pôde ser, de fato, aproveitado.
Berserk tem problemas de desenvolvimento importantes. Por vezes, o leitor sente que a história não está tomando um rumo, que o autor está perdido e apenas arrastando o atual momento até encontrar o caminho. Esse sentimento em muitas vezes se confirma, com o final de um arco não fazendo a história andar de maneira significativa e nem desenvolvendo nada de interessante nos personagens. É nítida a sensação de que Berserk poderia ser encurtado em, no mínimo, 30% do seu conteúdo, sem falta de absolutamente nada. O próprio ritmo de leitura é cansativo em certos pontos. O Elfo Puck, personagem que serve como alívio cômico e acompanha Guts em quase toda a sua jornada, tece comentários paralelos que preenchem quadros com balões, travam a leitura e nada acrescentam a história, apenas um suposto alívio cômico, inapropriado na maioria das situações.
Alguma ideias de Kentaro Miura com Berserk são dignas de elogios e a epopeia que o autor criou é realmente grandiosa a ponto de justificar seu apreço por tantos leitores (Berserk é, desde sempre, o mangá mais bem avaliado no MyAnimeList.net, por exemplo). Contudo, é notável que suas ideais possam tê-lo encurralado: e a opção por excluir um capítulo dos volumes encadernados já aponta para isso. Os incontáveis hiatos da obra, a ponto dela se estender por tanto tempo que seu criador veio a falecer antes de terminar, são outros indícios. Não sabemos se Miura conseguiria um dia amarrar suas ideias e dar a Berserk uma conclusão digna de seu status dentro do fandom, mas se um dia essa conclusão chegar, recomendo a todos que as expectativas não sejam altas.
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